2 de setembro de 2008

Revista Fapesp: de gordura a músculo....

Em laboratório, células-tronco restauram força de camundongos com
distrofiaMaria GuimarãesEdição Impressa 150 - Agosto 2008
Pesquisa FAPESP - (c) Eduardo Cesar (cão) e Natássia Vieira

Células (no detalhe) produzem distrofina humana em cães e roedores
Com as patas dianteiras agarradas a um varal em miniatura, o
camundongo ergue o corpo até que as traseiras também agarrem o arame,
evitando assim a queda. O pequeno acrobata é a mais recente esperança
do grupo da geneticista Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma
Humano da Universidade de São Paulo (USP) – um dos Centros de
Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP –, para combater
a distrofia muscular, doença genética que atinge um em cada 2 mil
brasileiros. Ainda sem cura, a distrofia muscular causa a degeneração
progressiva dos músculos a partir da infância, levando à perda dos
movimentos e à necessidade de aparelhos para auxiliar a respiração.

Nos últimos anos a equipe de Mayana vem testando diferentes tipos de
células-tronco adultas, extraídas da gordura descartada na
lipoaspiração, de dentes de leite e do cordão umbilical, em modelos
animais que desenvolvem um problema semelhante à distrofia muscular
humana.

No caso do camundongo acrobata, células-tronco de gordura humana
fizeram jus à sua versatilidade e se transformaram em músculo. A
equipe da USP usou 21 camundongos, divididos em três grupos. Um deles
recebeu células-tronco indiferenciadas, que não foram manipuladas
depois de extraídas do corpo humano. No segundo foram injetadas
células um pouco mais maduras, tratadas em laboratório para se
transformarem em células musculares. O terceiro grupo não recebeu
tratamento e serviu para comparação com os outros dois.

O resultado foi surpreendente. A melhora mais marcante se deu nos
animais tratados com as células indiferenciadas, segundo dados
publicados na revista Stem Cells. "Parece que as células se
desenvolvem melhor no organismo do que no laboratório", comenta
Mayana.

O efeito do tratamento pode ser notado até mesmo por quem não é
pesquisador. Os camundongos do grupo de controle (não-tratados)
permaneceram cerca de um minuto pendurados no varal antes de cair. Já
os que receberam injeção de células-tronco se saíam bem no teste –
esses animais apresentaram em média um aumento de 15% na força
muscular.

Há ressalvas, porém, quanto a usar camundongos como modelo para
investigar a distrofia muscular humana. Mutações no gene produtor de
distrofina, proteína responsável pela maior parte dos casos da doença
em seres humanos, não causam uma fraqueza visível nos roedores. Por
isso a equipe da USP usou nos testes camundongos com distrofia
muscular causada por deficiência na produção da proteína disferlina,
que provoca nos animais os sintomas mais visíveis da doença humana. A
melhora não foi só clínica: "As células-tronco humanas se
transformaram em músculo e passaram a produzir todas as proteínas
musculares, inclusive a disferlina e a distrofina", conta a
geneticista Natássia Vieira, autora principal do trabalho. É um
indício de que as proteínas humanas cumprem sua função também em
outros mamíferos.

A equipe de Mayana procura superar as restrições dos estudos com
camundongos trabalhando, em parceria com o grupo de Maria Angélica
Miglino, da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, com cães da raça
golden retriever. Esses animais apresentam sinais de distrofia mais
próximos aos das crianças que procuram o Centro de Estudos do Genoma
Humano. Mas nem tudo é perfeito: os cachorros ocupam mais espaço,
comem mais ração e não se reproduzem tão rapidamente quanto os
roedores, motivo pelo qual o trabalho com eles é mais lento.

O avanço mais recente no tratamento dos cães já está disponível no
site do Journal of Translational Medicine. Encabeçado pela geneticista
Irina Kerkis, do Instituto Butantan, e pelo veterinário Carlos
Ambrosio, da USP, o grupo comparou o efeito de duas formas distintas
de aplicação de células-tronco: diretamente no músculo ou na corrente
sangüínea. Irina e Ambrosio aplicaram injeções de células-tronco
retiradas de dentes-de-leite humanos em quatro filhotes de golden
retriever – dois machos e duas fêmeas – e constataram que as células
injetadas no sangue têm mais chances de se incorporar ao músculo do
animal afetado.

Mayana ainda não comemora o resultado. Dos quatro animais tratados, só
um macho continua vivo e saudável após o final do estudo. "Ele pode
estar vivo só por ser parente do Ringo", reflete a geneticista,
referindo-se ao cão que aos 5 anos de idade não tem sintomas apesar de
geneticamente ter a doença. Descobrir o porquê pode mudar o combate à
distrofia muscular.

Fonte: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3607&bd=1&pg=1&lg=

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Enviado por:
Prof. Dr. Darwin Ianuskiewtz
www.profdarwin.com